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05/10/2018 ás 18h35

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Taguatinga / TO

Ouro enterrado por escravos em oferendas religiosas inspira lendas em Natividade
Segundo lendas, espíritos protegem até hoje as peças. Cultura popular é eternizada por histórias e pelo ritual afro-brasileiro.
Ouro enterrado por escravos em oferendas religiosas inspira lendas em Natividade
oto: Prefeitura de Natividade/Divulgação

Com 284 anos, Natividade está localizada no sudeste do Tocantins, a 230 quilômetros de Palmas. A cidade é famosa pelas ruínas seculares da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Um lugar que simboliza o passado da cidade. Construída pelos escravos, o arco da entrada serve como moldura de um quadro natural. Uma lenda, como tantas outras que são contadas pelos moradores, faz o mistério habitar nessa construção.





A lenda conta que no século 18, escravos faziam oferendas neste lugar. Eles ofereciam ouro aos deuses. Por isso nesse terreno teriam muitas peças de ouro enterradas. Um bezerro de ouro, por exemplo. Espíritos protegem até hoje essas peças, esses materiais. Cultura popular que é eternizada por histórias e pelo ritual afro-brasileiro.




O batuque da sússia, dança que é patrimônio nacional. Os escravos usavam o ritmo como jogo de sedução e libertação. Os instrumentos são de fabricação artesanal. Os dançarinos fazem parte do grupo tia Bem Vinda. A sússia é um dos atrativos de Natividade, o primeiro povoado do Tocantins.




A história está também nas construções da cidade. Na igreja de São Benedito, na matriz de Nossa Senhora da Natividade. Nos casarões com detalhes arquitetônicos trazidos pelos bandeirantes que chegaram aqui no século 18 atrás do ouro. Historiadores dizem que quase 40 mil escravos habitaram esse território.




O amarelo da flor revela quem tem orgulho de morar no município histórico. Com o sorriso sempre estampado no rosto, a promotora cultural Simone Araújo nasceu e cresceu no lugar. "Natividade é a cidade mãe do Tocantins. A cidade mais antiga, de longas origens. Então, como cidade mais antiga ela representa o nascimento, as origens. Aqui está o começo do estado."




No pescoço, a joia feita por moradores de Natividade. "Eu estou usando o coração e ele tem os dois lados. O lado nativo e o lado português", explica.



O coração nativitano é uma das dezenas de joias produzidas pelos chamados ourives. Com muita paciência, até hoje, eles derretem o ouro garimpado na região e em um processo detalhista transformam o dourado bruto em arte. Usando a técnica da filigrana, com influência portuguesa e africana.




"Esse coração a gente demora em média, dois dias, dois dias e meio. Processo de fabricação dele. Esse daqui é o tamanho médio, que está com sete gramas e meio. Fica em R$1500", diz o ourives Uardon Moreira da Silva.




O guia de turismo Flávio Cavalera é outro morador que faz questão de propagar toda essa história. Ele garante, que quando chove, é fácil achar ouro.




"Uma tradição que é verdadeira. Até hoje, algumas ruas de Natividade não tem calçamento e as pessoas saem catando esse ouro precioso, que tem na nossa cidade e que elas fizeram muitas joias com esse ouro achado no chão após as enxurradas.




O som da capoeira ecoa por séculos e faz quem é jovem dar valor a cultura brasileira. "Capoeira é tudo. É filosofia de vida, é arte, é educação. Ela se integra bastante há todos nós brasileiros", diz o capoeirista marco Antonio Ferreira.




Não tem como falar de Natividade, sem dizer sobre a tradicional festa religiosa da Folia de Reis, que acontece entre o Natal e o dia 6 de janeiro. Grupos formados por cantores e músicos peregrinam levando fé por onde passam.




A cidade também é moradia da misteriosa dona Romana. A vidente que construiu centenas de esculturas, estoca água, grãos, objetos e diz que o mundo nunca terá fim.




Natividade é rodeada por serras. Eram nessas montanhas que os escravos garimpavam o ouro. Uma piscina natural conhecida como poço da gruta fica no pé da serra. Lá em cima ficavam as minas de ouro. As pessoas mais antigas da cidade contam que os escravos fugiam dos donos dos garimpos e iam ao local para ter um momento de lazer. Eles usavam essas fendas como esconderijo.



As trilhas que cortam as serras levam também a Cachoeira do Paraíso. Um refúgio que atrai turistas com vontade de relaxar e curtir um momento de paz. Depois de muita caminhada, hora do almoço, com o arroz di catigoria, a galinha caipira nativitana e o pirão de parida.




"Pratos típicos, feitos da cultura daqui. Tradição, que a gente fala. As comidas daqui são centenárias. Veio do meu avô, passando para os meus pais e a gente acaba aprendendo um pouquinho de cada coisa", diz o empresário Eurival Neto.




Tem história na comida e nos lugares, como uma construção que já foi escola, hospital. "Essa construção já foi escola, foi a primeira da região. Como é muito antiga, a casa é centenária, tem história que a gente acaba não tendo, mas dizem, algumas pessoas mais antigas, dizem que aqui também foi um hospital."




Hora de experimentar a culinária com superstição. "O pirão de parida é interessante porque eles para as mulheres, depois que elas tinham filho. Como a farinha já está inchada, eles acreditavam que não ia dar barriga. Tem uma pimentinha, boa.




Quem vai ao local também é atraído pelo amor perfeito. O conhecido biscoito que derrete na boca. Faz parte da história de um casal muito conhecido de Natividade: tia Naninha e tio Dozim. "Algumas pessoas que nos visitam dizem que esse amor perfeito está entre nós dois", diz ele.




O casal está junto há mais de 70 anos teve treze filhos. Eles contam que nunca brigaram, um amor cheio de vida. "Viver todos nós vivemos, saber viver é que são elas", afirma.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


Informações G1/TO





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